Inovação tecnológica e os desafios da pós-verdade
DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.19059026
Eduardo Justino de Paula – mestrando do PMPD
A inovação tecnológica constitui um dos mais relevantes traços distintivos da espécie humana, diferenciando-a, de maneira decisiva, das demais espécies que povoam o planeta. Ainda que seja possível e até mesmo interessante presenciar algumas outras espécies protagonizando certas construções tecnológicas, como uma barragem construída por castores ou uma colmeia feita por abelhas, a dita inovação tecnológica é uma manifestação essencialmente humana.
O termo em questão – inovação tecnológica – geralmente remete a ideias positivas, elevando a própria condição humana a algo superior, o que pode ser, inclusive, uma maneira de reforçar a perspectiva antropocêntrica de mundo. Ainda que o movimento denominado antropocentrismo tenha surgido em um outro momento histórico, apenas para não perder a oportunidade, vale trazer aquele exemplo sempre lembrado, de Protágoras (485-410 a.C), de acordo com o qual “o homem é a medida de todas as coisas”. A inovação tecnológica, sendo concebida por criaturas humanas e para criaturas humanas, permite reforçar essa feição, essa abordagem que coloca a espécie humana como protagonista.
Desdobrando um pouco mais a ideia de inovação tecnológica, esta é vista como responsável direta por uma série de benesses experimentadas pelas pessoas, que vai desde um singelo ato de selecionar uma música por comando de voz em determinados equipamentos eletrônicos até benefícios na saúde, capazes de proporcionar uma vida mais longeva.
Tão natural é a tendência de encarar a inovação tecnológica como algo necessariamente positivo, que muitos de seus efeitos colaterais acabam sendo deixados em segundo plano ou como um mero problema “administrável”. É inegável, contudo, que a inovação tecnológica, além de benefícios, tem trazido também alguns efeitos colaterais indesejáveis.
Um exemplo de efeito colateral é a maneira como verdade e mentira atualmente são tratadas. A propagação de “desinformação”, “mentira” ou, para usar a expressão da vez, de “fake news”, adquire uma feição com ares de ineditismo. É fato que a mentira talvez seja inerente ao ser humano e, por este viés, não há nada de inédito. Cabe aqui abrir um parêntese para lembrar que o aprendizado da mentira é algo natural no desenvolvimento humano, que se manifesta desde a mais tenra idade. Em geral, crianças costumam elaborar mentiras que nem sempre são dotadas de grande eloquência. Na medida em que vão crescendo, passam a adquirir a capacidade de mentir com maior sofisticação.
Não há exagero nenhum, portanto, em afirmar que mentir é humano.
Os exemplos aptos a corroborar tal afirmação poderiam se suceder aqui, dos mais óbvios aos mais surpreendentes e minuciosos, juntando-se a uma lista deveras extensa. Afinal, não se nega que inverdades acompanham a caminhada da humanidade de longuíssima data. Ocorre que o foco não é confirmar que a mentira está presente na vida humana desde os tempos imemoriais.
O que se pretende é enfatizar como a mentira tem sido utilizada nesta quadra histórica mais recente. O que ganha ares de ineditismo é a sua utilização na tal era da pós-verdade, como ferramenta, como instrumento, como método destinado a atingir determinados objetivos escusos. Até mesmo a terminologia precisou se adaptar para contemplar esse uso atual e mais sofisticado da mentira. A “mentira” cede lugar às “fake news”.
Uma das peculiaridades dos tempos atuais é o uso massivo das fake news, metaforicamente (ou não) em escala industrial. A inovação tecnológica trouxe meios que se mostraram não só aptos à propagação desenfreada da desinformação, mas acabaram rompendo com a “lógica” de outrora, na qual o tráfego da “informação” ou da “desinformação” pressupunha, em alguma medida, uma fonte que, se confiável ou não, no mínimo poderia responder pelo conteúdo repassado.
Diferentemente de tal cenário, em que a notícia verdadeira ou falsa parte de uma fonte determinada ou determinável, com o uso de redes sociais não há necessariamente o protagonismo de determinada fonte no que concerne à difusão de notícias. As redes sociais permitem que cada pessoa que receba uma notícia possa, instantaneamente, difundi-la de forma muito efetiva e sem nenhuma filtragem quanto à sua veracidade.
Nesse sentido e ainda que de forma não exclusiva, as fake news, tal como abordadas atualmente, acabaram se tornando um produto das redes sociais e, por conseguinte, da própria inovação tecnológica. Diversos são os exemplos de utilização de redes sociais para a proliferação de fake news, servindo até mesmo para potencializar determinadas mazelas humanas, como o preconceito, a xenofobia, a discriminação nas mais diversas formas, o que evidencia a premente necessidade de implementação de mecanismos de checagem, de filtragem, de verificação da veracidade do conteúdo difundido.
Daí se conclui que a inovação tecnológica, que geralmente remete a ideias positivas, também pode trazer consigo alguns efeitos colaterais nada desejáveis e, conforme se infere dos exemplos citados, nada agregadores.
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