DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.20619619

Marcelo Barros Melo

Ludwig van Beethoven, embora homem afeito a paixões, por vezes viu seu amor não ser correspondido pelas pretendentes da época. Em busca de sua amada imortal (pessoa desconhecida a quem o compositor certa vez escreveu uma apaixonada carta – fato que se tornou célebre pelo filme de mesmo nome), não mediu esforços para alcançar corações – há quem diga que Für Elise teria sido composta no contexto de conquista. Todavia, apesar das tentativas, umas permaneceram-lhe ora indiferentes, outras apenas como paixão fugaz. Natural, todos passamos por isso, mas a pergunta que insiste em ser feita pelos estudiosos até hoje é a seguinte: Beethoven foi ou não um romântico?

Embora a introdução do presente ensaio faça crer que o romantismo a que se refere seria aquele da experiência humana, dos sentimentos, dos desejos ou das emoções, disso não se trata exatamente. A pergunta título relaciona-se ao modo como o compositor alemão seria categorizado dentro dos movimentos culturais da história da música, se clássico ou romântico, pois essa é a discussão que, por diversas vezes, os biógrafos de Beethoven travaram ao longo do tempo. Antes de se chegar a qualquer conclusão, uma outra pergunta precisa ser respondida: o que seria clássico e o que seria romântico no contexto da música erudita?

Em uma rápida conceituação, o classicismo, período que vai de meados do século XVIII ao início do século XIX, é caracterizado pelo equilíbrio na organização musical e em certa rigidez de estruturas, sendo a forma sonata a mais utilizada no período (exposição do tema “A-B”; desenvolvimento “C”; e recapitulação “A’-B’”). As execuções musicais eram realizadas frequentemente no formato de concertos, desde a apresentação de um simples quarteto de cordas até a execução de uma sinfonia por orquestra com diversos instrumentos.

Já no romantismo, a forma deixa de ser tão rígida, a liberdade do compositor e do intérprete são maiores em busca de ampla expressividade melódica, com maior energia na execução das obras – tudo para exprimir de maneira mais fidedigna os sentimentos mais profundos da alma do artista (amor, paixão, dor, heroísmo...). Corpos orquestrais maiores e mais complexos passaram a ser utilizados, sendo os músicos da época influenciados tanto por escritores contemporâneos (Goethe, Schiller, Lord Byron, Victor Hugo etc.), quanto por um sentimento nacionalista mais elevado, que se expressava em melodias e harmonias do folclore de cada país.

Pois bem, e Ludwig, que nasceu em 1770 e morreu em 1827, seria representante de qual escola?

Um de seus mais estimados alunos, e eterno assistente, Carl Czerni, muito lembrado pelos seus estudos de piano utilizados até hoje e como o primeiro a perceber a surdez do mestre, mencionava que o artista seria o maior representante da escola clássica de Viena. Também adotando tal posição, dentre outros, Donald Francis Tovey, na obra intitulada Beethoven, publicada em 1944 na Universidade de Oxford, que analisa sob a ótica da construção classicista de Mozart e Haydn mesmo as obras finais do músico alemão (como a 7ª Sinfonia e a ópera Fidélio).

Por outro lado, seguia a tese do romantismo de Beethoven o compositor francês Hector Berlioz, que incorporou conscientemente ao seu estilo sinfônico elementos do estilo de Ludwig. Conforme coluna de Augusto Valente, na revista Deutsche Welle de 13/1/2003, “Berlioz cultivou de forma incipiente aspectos tipicamente beethovenianos, como riqueza estrutural ou desenvolvimento temático, em favor da representação sonora de histórias, paisagens e estados de espírito” (disponível em https://www.dw.com/pt-br/hector-berlioz-e-a-m%C3%BAsica-alem%C3%A3/a-746103. Acesso em 19/3/2025).

O Nobel de literatura de 1915, e igualmente francês, Romain Rolland, é um dos adeptos da mesma teoria. Ao escrever o livro “A vida de Beethoven”, não só evidencia aspectos técnicos da música, como também do viver e da personalidade “romântica” do artista, como a surdez que não o impediu de seguir milagrosamente compondo, e outros ingredientes dramáticos tão “valorizados” no século XIX: embora “um infeliz, pobre, inválido, solitário, a personificação da dor, a quem o mundo recusa a alegria”, também aquele que “cria ele próprio a Alegria para dar ao mundo” (disponível em https://www.e-cultura.pt/artigo/31836. Acesso em 19/3/2025).

Todavia, apesar dos classicistas não estarem totalmente errados e dos românticos não estarem completamente certos, a posição mais comumente aceita é a de que Beethoven é um compositor de transição entre as duas épocas. Ele praticamente esgota as possibilidades do classicismo, já abrindo as portas para o desenvolvimento do romantismo. Como Eduardo Monteiro e Mônica Lucas bem descreveram:

Nos debates estéticos que ocorreram desde o fim do século XVIII, a música de Beethoven foi tomada como exemplo dos novos ideais sinfônicos e modernos. Sua produção foi considerada modelar tanto nas contendas filosóficas quanto na prática musical. É uma opinião comumente aceita que Beethoven constitui-se num ponto de divisão entre a música dos séculos XVIII e XIX, entre os estilos musicais assim denominados “Clássico” e “Romântico”. Autores como Ratner (1980) e Crocker (1986) observam que Beethoven se diferencia radicalmente de seus contemporâneos, de modo geral, mais voltados para o sentimentalismo e o virtuosismo técnico. Nesse sentido, desprendem-se do ancoramento na tradição representada por Haydn, que fundamenta a técnica compositiva de Beethoven. Essa percepção de continuidade já está presente na crítica da época: por exemplo, em 1810, o compositor e crítico musical Johann Friedrich Reichardt (1810, I, p.31-2) expressa-a com a seguinte metáfora: “[Mozart] construiu seu palácio sobre o fantástico e acolhedor pavilhão de Haydn. Beethoven, desde cedo, já se sentira em casa nesse palácio, e só lhe restou construir, para expressar sua própria natureza em suas próprias formas, torres arrojadas e orgulhosas, às quais não é possível acrescentar nada sem quebrar o pescoço” (disponível em https://www.scielo.br/j/ea/a/J6rZ4Fxtf8j9nCKJZ9mYyDJ/?lang=pt&format=pdf. Acesso em 19/3/2025).

Entretanto, o mais importante dessa discussão, e respondendo à pergunta feita no início do ensaio, é que Beethoven é aquilo que cada um sente no momento em que o escuta. A experiência pode ser uma quando ouvimos o mestre com ouvidos formais e de perfeccionismo; pode também ser outra, quando o ouvinte busca a liberdade das formas e a expressividade das emoções. Por fim, a experiência pode ser desvinculada de tudo, quando se compreende Beethoven como entidade livre entre dois mundos; como o início e o fim de duas escolas; como o alfa e o ômega de dois universos. Conclusão inconclusiva ou paradoxal? Talvez, tal como a lógica de existência de um músico surdo capaz de compor monumentos musicais. Para ficar mais fácil, a simples afirmativa: Beethoven é Beethoven.